no boat forever

China. De Xangai para Hangzhou, com destino às montanhas amarelas. Li num guia que poderia fazer a viagem de quase 500 quilómetros de barco, pelos canais que ligam as grandes cidades. Aguardava-me um passeio bem interessante, 13 horas observando pequenas povoações pela janela de um hotel fluvial. Chegaria a Hangzhou pela manhã, bem relaxada e pronta para a grande caminhada, montanha acima.

Pus o plano em movimento: a aventura de chegar à estação, depois o comboio para Suzhou. À chegada, armada em espertinha, tentei apanhar um táxi sem esperar na fila. First mistake.  Esperei como os outros carneirinhos, envergonhada pela tentativa pouco honesta. Fui adivinhando pelas caras quem poderia falar inglês. Um rapaz da cidade, de ar tímido e simpático, assegurou-me que não poderia haver barco para Hangzhou. It’s very far. Abanava o seu cabelo preto a tentar convencer-me. Apostou no telefone de última geração. Ligou a um amigo que lhe garantiu que eu devia estar maluca. Sorry, no boat. Perguntei simplesmente pelo porto. Apontou para o monte de tábuas, a 100 metros dali, junto ao canal em obras. Nesta fase, decidi que os chineses não conhecem a cidade onde vivem. Já no táxi, apontei, no mapa, para a estação de ferries. Mais um abanar de cabeça. No, no, no, foi o que ouvi. Insisti. No, no. Insisti, apontando para o edifício ao lado, a estação de autocarros. A vantagem de não falar a mesma língua que as outras pessoas faz com que obtenha quase sempre o que quero. Lá saí do táxi, junto à estação dos ferries. Entrei, pedi para falar com alguém em inglês. Esperei. Mais um abanar de cabeça. Insisti. Boat to Hangzhou. Night boat. One ticket, please. E foi aí que ouvi a frase do dia: No boat forever. Quê? Como? Oi? E agora?

Respirei fundo. Nada estava perdido. Afinal de contas, Suzhou é uma cidade cheia de atractivos que ainda não tinha visitado. Ouvi dizer que tem muitos jardins, pagodes e museus. E canais. Casas fotogénicas e barcos típicos. Não nos levam por 500 quilómetros de canais, mas barcos. Fui ao local mais óbvio para me informar: Starbucks. Pelo menos falam inglês. Confirmei aquilo de que começava a suspeitar: não há barcos. Saboreei um muffin, com ar de quem tem tudo sob controlo. Uma funcionária olhava-me com um misto de estranheza e de pena. Cochichava com a colega enquanto olhava para mim. Aproximou-se e afirmou: Sorry, i checked and there are no boats. Fui passear, com alguns palavrões em mente. Pelos pagodes, templos, jardins. Transpirava por todos os poros, a mochila colava-se às costas. À minha volta, arbustos verdes, pavilhões vermelhos, pilhas simbólicas do que me pareciam pedras, lagos com peixinhos felizes dentro de água. Na minha cabeça, muitas palavras feias, além do desconforto físico de andar a caminhar não-sei-bem-para-onde há demasiadas horas.

Desisti de Hangzhou. It’s too far. Ali perto de Suzhou havia uma pequena aldeia onde poderia passar a noite e, no dia seguinte, haveria de arranjar um plano melhor. Entrei numa espécie de rickshaw motorizado, apontei para a bus station, que eu sabia exactamente onde ficava – ao lado da estação de ferries. O rapazito, satisfeito por ter finalmente clientela, acelerou sorridente na direcção oposta. Comecei a ficar nervosa. Ruelas, becos, estradinhas de terra batida. De vez em quando um pato cruzava o nosso caminho. O motor fazia o barulho suficiente para não se ouvir a minha voz, a gritar com o condutor. Continuou a acelerar, já numa estrada de alcatrão. Parou. Olhou para mim com um grande sorriso e disse: bus station. Durante um milésimo de segundo decidi atirar-lhe o dinheiro para a mão em vez de lhe bater, como me apetecia. Ele não entendeu e continuou a sorrir. Caminhei, e 50 metros em frente tinha mesmo a estação dos autocarros. Bolas, fui injusta.

Comprado o bilhete, uma hora de viagem, cheguei a Tongli, aldeia histórica. Segui a multidão até ao canal. Foi aí que ouvi, nesta pequena cidade, a única palavra em inglês: ticket. Depois de no boat forever até que soube bem! Procurei a morada de um hotel. Nada. Ninguém falava inglês. Com o peso da mochila e o desconforto de um dia mal passado, entrei por um jardim adentro. Tinha a atmosfera de uma guesthouse. No terraço, fiz barulho até aparecer alguém. Os quartos – perfeitos. Frescos, confortáveis, bonitos. A sorte estava a mudar. Negociei o preço com as únicas palavras de mandarim que aprendi, os números. Aguardava-me um duche frio, meia hora de sesta e um passeio.

Este vilarejo surpreendeu-me. Mesmo. Ignorando os comerciantes, que desesperadamente tentavam seduzir-me com os seus produtos, iguais em todas as lojas, circundei os canais. A vida de Tongli desenrolava-se à minha frente. Nos barcos, corvos descansavam da pescaria diária, junto aos seus donos. As conversas, de pijama, deixavam-se refrescar nos muros do canal. Peças de roupa suspensas junto à porta. Uma aragem a trazer a sorte ao dia. De onde em onde, surpreendia um olhar curioso, a que respondia com um nihao*. Recebi alguns sorrisos tímidos. Deixei-me levar junto às filas de barquitos, a descansar das viagens turísticas. Cruzei pontes, vi casebres que se deixavam fotografar no charme da decadência. No centro da vida familiar, a ponte de entrada na zona histórica. Três idosos revezavam-se a olhar-me e a comentar a quantidade de fotos que tirei. Queriam conversar, mas não sabiam como. Desviavam-se e chamavam-me para apanhar bons ângulos. Apreciei a vista e a companhia. Regressei ao hotel e adormeci a pensar na sorte que tinha por não estar numa viagem de 13 horas, num barco rumo ao Sul.

*nihao significa “olá” e terei a oportunidade de treinar a sua pronúncia daqui a dois meses… na China!!

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This entry was published on Maio 11, 2010 at 11:03 pm. It’s filed under china and tagged , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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